O diário do Padre Vampiro
Era uma noite fria e chuvosa em São Paulo, Mário ia fazer a sua última corrida antes de ir embora, tinha recebido uma chamada via rádio, buscar um senhor em frente a Catedral da Sé, ele olhou para o relógio e blasfemou da sua falta de sorte de sempre pegar passageiro em lugares ruins, estava acontecendo muitos assaltos a taxistas, o centro da cidade é as vezes até mais violento que a periferia quando as lojas são fechadas e as luzes se apagam.
Mas ele sabia que tinha que ir, rádio táxi é mais seguro, mas tem o fator de não ter como escolher passageiro, quem está mais perto tem que fazer a corrida.
Em alguns minutos lá estava ele, na avenida em frente a igreja, deserta, escura e silenciosa, o único som saía do limpador de pára-brisa e do seu rádio sempre sintonizado em uma estação de notícias. Acendeu um cigarro, olhou no relógio novamente, estava no horário marcado, mas o homem não estava lá.
- Mas que merd... - foi interrompido com um toque na janela ao lado do passageiro.
Mário deu um pulo, quase engoliu o cigarro, tamanho o susto que levou. Era seu passageiro, pelo menos parecia ser, não havia outra alma viva naquela rua.
- Oh... Meu caro, me desculpe não foi minha intenção te assustar, estou constrangido não devia ter batido na janela dessa forma. - disse o homem enquanto sentava no banco de trás.
Mário fitou o passageiro pelo retrovisor, um homem de meia idade, com uma fisionomia suave, ele vestia um sobretudo preto e um chapéu que já estava todo ensopado.
- Não tem problema senhor, você apareceu de repente, foi apenas um susto, se fosse uma cobra teria me picado. - respondeu o taxista ainda fitando o passageiro pelo retrovisor.
- Meu filho longe de mim, ser uma cobra... Mas sou um padre, o que é muito mais perigoso. - disse o passageiro com um sorriso maroto apontando para sua lapela.
- Nossa vou direto para o inferno, um padre? Eu soltei um palavrão justamente na frente de um padre... - disse Mário - Perdão padre... Sou descendente de italianos, sempre praguejando...
- Não precisa pedir perdão, as vezes blasfemo também meu caro. Me leva para o hotel Hilton que estará perdoado. - disse o padre dando um largo sorriso.
- O senhor é que manda, vamos lá.
Mário continuou a fitar o padre através do retrovisor, ele parecia estar aflito com alguma coisa, seu olhos claros eram vagos olhando a densa chuva que respingava sobre o vidro do táxi.
- Sabe padre, minha mãe era muito católica, ela freqüentou a igreja durante toda sua vida, sempre ajudou as pessoas, sempre fez o bem. Ela me ensinou muita coisa sobre Jesus, fui batizado, fiz primeira comunhão e até me crismei. Mas, ela adoeceu ficou muito ruim, estava com câncer. Vivi dez anos da minha vida cuidando da minha mãe, ela estava definhando, foi a coisa mais triste que me aconteceu. Vou ser sincero com o senhor, fiquei revoltado com Deus, nunca mais pisei numa igreja, porque Ele fez ela sofrer tanto? Porque as pessoas boas sofrem tanto? Não consigo entender padre, não consigo entender....
O padre se aproximou, retirou o crucifixo que estava em seu peito e disse :
- Está vendo isso aqui? É por causa disso! A dois mil anos ele carregou uma dessa, logo após ter sido flagelado pelos romanos, e depois de tudo isso foi pregado nela. Todos temos uma cruz para carregar meu caro. Umas mais pesadas e outras mais leves, mas todos temos... As pessoas tem uma visão distorcida do cristianismo, de Deus, se ele pôs o próprio filho para sofrer aqui, quem dirá nós pobres mortais? Sua mãe está em um bom lugar...
- Se o senhor diz... E os padres? Os padres também tem cruz para carregar?
O padre deu um breve suspiro e disse:
- E como tem... Talvez até maior do que você imagina, meu caro.
Mário tentou por algumas vezes continuar o assunto com o padre, sem sucesso.
- Chegamos padre, está entregue. Para o senhor é só 20 reais.
- Como é seu nome meu caro? - perguntou o padre lhe entregando o dinheiro.
- É Mário senhor! Como 80% dos italianos... E o senhor como se chama?
- Lázaro... Como toda santidade... - brincou o padre ao descer do táxi.
Mário esperou o padre entrar no hotel para partir para sua casa. Em casa, ao estacionar o carro, Mário encontrou um livro no banco de trás.
- Caramba! O padre esqueceu a bíblia... - esticou o braço e pegou o livro .
Um livro antigo, com uma encadernação muito bem feita. Mário abriu o livro, e notou que não se tratava de uma bíblia. Estava cheio de anotações, uma grafia muito bonita, provavelmente feita com nanquim e bico de pena. Era uma espécie de diário.
Continua.... em breve!!!
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FERNANDO FERRIC
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