
Estavam todos na sala quando eu cheguei, meu pai, minha mãe, minha irmã, e um senhor de roupa branca, estava um clima ruim, tenso, deu para notar que minha mãe estava muito nervosa, eu não sabia o que estava acontecendo, eles nem sequer olharam para mim.
Aquele senhor ficou olhando para mim, disse que era médico, e que meus pais tinham lhe pedido para que viesse conversar comigo. Não entendia o porque dele conversar comigo.
Ele pediu para que sentasse na poltrona que estava a sua frente, e com muita calma começou a falar. Meus pais e minha irmã ficaram ao nosso redor. Minha chorou muito e meu pai a abraçou. Perguntei a minha mãe o que estava acontecendo, mas não tive resposta. O médico me interrompeu, pediu para eu deixar minha mãe se acalmar. Tirou um bloco de anotações e um lápis da sua maleta.Fiquei frente a frente com o médico, os meus pais e a minha irmã ao nosso redor. Minha mãe começou a chorar e meu pai a abraçou.
- Mãe o que esta acontecendo? - Renato, deixe sua mãe se acalmar. Converse comigo, tudo bem? Responda pausadamente tudo aquilo que eu perguntar, para eu poder anotar tudo. – respondeu o doutor tirando da sua maleta um bloco de anotações e um lápis.- Filho você ama seus pais? Sabe o quanto eles te amam?
- Sei sim doutor, eles sempre fizeram tudo por mim, amo minha família.
O doutor começou a escrever o que eu respondia. Ele tinha uma enorme habilidade com a escrita, era muito ágil, escrevia praticamente ao mesmo tempo em que eu respondia. - Que bom Renato, isso é o mais importante! O amor é a coisa mais importante sempre. Só quem ama compreende, quem ama se sacrifica, e faz de tudo para pessoa querida não sofrer. E é isso que seus pais estão fazendo hoje, e por isso me chamaram, para que eu pudesse conversar com você, e lhe pedir uma coisa muito difícil, mas que por amor você é capaz de entender e fazer. - falou o médico.Enquanto ele falava fiquei observando meus pais, fiquei pensando o quanto eu gostava deles e da minha irmã, minha família, minha linda família. Mas, o que estava acontecendo? Notei que eles não estavam conversando comigo naqueles dias, o que eu fiz de tão grave para eles estarem me tratando assim? E o médico? O que ele tinha com tudo isso?
- Me pedir uma coisa? Pedir o que? Diga... – nesse momento o lápis que o doutor usava se partiu, tamanha era a velocidade que ele escrevia, mas ele manteve a calma, pegou outro lápis na maleta e pediu a todos para manterem a calma.
- Pronto Renato, foi só um lápis quebrado, vamos continuar, filho vamos falar sobre drogas, você pode me dizer algo sobre isso?
Fiquei gelado. Como ele sabia que eu estava usando drogas? Agora eu estava entendo tudo, meus pais descobriram, talvez eles tivessem mexido nas minhas coisas. Será que acharam minhas seringas? - Renato não precisa mais esconder filho – disse o doutor – Só você pode se ajudar agora, portanto quero que abra seu coração.- Tudo bem doutor... é verdade, eu estou viciado sim. Mas prometo que vou melhorar. Pai, me desculpe, você sempre me alertou, mas cai na besteira de experimentar, mas vou sair dessa eu garanto.
- Renato, seus pais amam muito você, mas você precisa partir, precisa deixá-los, e para isso estou aqui, para fazer você entender isso.
Eu estava cada vez mais tenso, não estava acreditando que tudo aquilo estava acontecendo. Minha máscara havia caído, meus pais sabiam que eu era viciado.
- Mas porque eles querem que eu vá embora? Aqui é minha casa, esta é minha família. Mãe me perdoa por favor.O doutor disse a minha mãe que eu estava arrependido e pedindo o seu perdão.
- Porque meu filho? Porque você fez isso com a gente? Porque você fez isso com você? – disse minha mãe.
Por mais que eu quisesse, não saia uma lágrima, eu chorava por dentro, ver minha mãe desse jeito era a última coisa que eu queira. - Renato você precisa descansar, e deixar seus pais descansarem também. Todos temos que seguir nosso caminho, e o seu infelizmente não é mais nessa casa. - disse o médico.- Mas eu vou mudar eu sei que vou conseguir, não vou mais fazer isso. Mais um lápis se quebrou, dessa vez quase rasgando a folha do bloco de notas. O doutor parou abriu a maleta e pegou outro.
- Infelizmente isso não é mais possível. Tem coisas que são irreversíveis, e quero que você compreenda isso. Renato olhe para seus braços.
Olhei para os meus braços e fiquei paralisado, eles estavam com várias marcas de picada.- Você lembra como foi que isso aconteceu? Lembra do que aconteceu no banheiro?
"Era uma sexta-feira fria e chuvosa, eu estava sozinho, meus pais levaram a Gabi para o cinema, eu estava me arrumando para ir a uma festa."
- Lembro vagamente... - O que aconteceu no banheiro Renato? Pode lembrar?"Eu já havia me picado a tarde, mas não estava mais fazendo efeito, eu precisava de mais, precisava de combustível, precisa do poder, poder que só ela poderia me dar."
- Renato? Fale comigo, tente se lembrar...
"Eu precisava de mais uma dose, fui até minha cômoda e retirei a gaveta, lá estava ela, maravilhosa, me deu água na boca." - Tente se lembrar Renato, lembre do que aconteceu no banheiro..."Sim, o banheiro, onde eu sempre me picava, foi para lá que eu fui, tinha bastante heroína, dava para fazer umas três doses, mas não naquele dia, não naquela sexta, eu precisava de embalo, precisava de mais combustível."
- Você precisa lembrar filho, precisa deixar seus pais em paz.
"Fiz uma tremenda dose, era o suficiente para ficar bem a noite toda, me sentir imortal, um deus... Sim um deus!"- Renato, me escute, saia dessa casa filho, aqui não é mais o seu lar.
"Segurei a seringa com a boca, estendi o braço e bati até minha veia saltar, ela tinha que estar tinindo, apta a receber a poderosa. Meu corpo tremia, já sentia o momento, se preparava para receber aquela maravilha."
- Precisa encontrar seu caminho Renato! E deixar que seus pais encontrem o deles. Que sua irmã possa ter tranqüilidade.
"Encostei a agulha no braço, minha veia saltava como se quisesse alcançar a ponta da agulha, suspirei de prazer enquanto injetava, senti percorrer por todo meu corpo."
- Em nome de Deus! Você precisa partir...
"Mas algo estranho começou a acontecer, eu estava perdendo os sentidos, meu coração parecia que ia explodir, minhas pernas dobraram, meu corpo estava pesado, tombei, fiquei paralisado, não consegui nem fechar os olhos." - Você esta morto! Não pertence mais a este mundo meu filho.- Não! Eu estou bem! Estou aqui! – o médico foi arremessado da cadeira como se fora impulsionado pelo meu grito.
Meus pais ficaram apavorados, correram e abraçaram minha irmã.- É tudo mentira mãe! Eu não estou morto, eu estou aqui, quero ficar com vocês... Eu quero ficar!
- Não Renato, infelizmente você não esta vivo, seus pais nem podem te ouvir, por isso me chamaram. Tem que deixar eles viverem em paz, você tem que partir.
- Mentira! Isso não pode estar acontecendo... Quem é você?
E foi assim que conheci o dr. Tavares, terapeuta das almas, sua função? Conversar com mortos, mostrar a eles que é chegada a sua hora, hora de largar este mundo, os bens materiais, os entes queridos, os projetos, o amor, o ódio, nada mais importa... Ele é contratado para libertar famílias de espíritos chamados zombeteiros, livrar casas de assombrações, geralmente é bem sucedido. Geralmente, porque no meu caso ele não teve muito sucesso, resolvi deixar meus pais partirem, terem a vida deles, mas não vou sair dessa casa... Vou ficar aqui! Aqui é meu lugar! Já até me acostumei com os novos moradores, só não sei se eles se acostumarão comigo...
O que você achou desse conto???
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Fernando Ferric
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