O quadro do palhaço

Festa de aniversário na casa de André, ele estava completando 8 anos, entre os vários presentes, um recebeu atenção especial, um quadro com a gravura de um palhaço, ele usava um chapéu amassado com uma flor morta e tinha uma fisionomia triste.
André não tinha mais tranqüilidade para brincar no seu quarto, se sentia vigiado pelo estranho quadro pendurado na cabeceira da cama. Ele tinha a impressão que o palhaço se mexia enquanto ele brincava.
O pior era quando anoitecia, na hora de dormir ele ouvia estranhos ruídos que pareciam vir do quadro, levantava, ligava a luz e lá estava o palhaço com o semblante triste, mas ao mesmo tempo um sorriso cínico.
O medo era tão grande que um dia ele teve um terrível pesadelo com o palhaço, acordou no meio da noite, e foi correndo para o quarto da sua mãe.
Acordou disposto a dar fim naquele medo, pegou o quadro colocou no chão e ficou observando aquela gravura, era como se o palhaço tivesse vida. André pegou uma faca e começou a raspar os olhos do temível palhaço, sem os olhos ele não parecia tão terrível assim. Quando sua mãe chegou e viu o que ele tinha feito com o quadro ficou muito nervosa, lhe deu uma surra, e o pior, deixou André de castigo trancado no quarto.
André não sabia o que fazer, ele sentia a presença do palhaço no quarto, se apagava a luz ficava vendo coisas, se acendia lá estava a gravura, agora sem olhos e com um ar de vingança. Pegou o quadro e colocou embaixo da cama, deitou e pensou que tinha achado uma boa solução, mas começou a ouvir uma risada, bem baixinha, como se estivesse provocando.
"Lá, lá, lá lá lá. Não estou ouvindo nada!" – começou a cantar com as mãos tampando os ouvidos.
André sentiu um forte puxão em seus braços.
"Agora você vai ouvir!!!" - disse o palhaço em cima de sua cama, o garoto não podia acreditar que o palhaço estava na sua frente, não era uma gravura, era real, seu rosto era sombrio, sua maquiagem estava desbotada, usava uma roupa rasgada, fétida, era como um circo de horrorres.
"Me larga seu palhaço horroroso... Me larga!!!" – gritou André se debatendo.
O palhaço continuou a segurá-lo com muita força, e dava gargalhadas, de seus olhos escorriam um líquido negro, o palhaço ergueu a mão e enfiou com toda força no peito de André.
Ele sentiu o amargo sabor da morte em seus lábios, não podia se entregar, não podia deixar sua vida escapar, de repente um clarão, e uma forte sacudida em seus ombros.
"Acorda filho! Acorda! Calma... Foi apenas um pesadelo." – disse sua mãe.
A mãe de André deixou ele dormir no quarto dela. Mas ele sabia que seria só naquela noite, e teria que enfrentar o quadro novamente.
Na escola, ao contar o que aconteceu, seus amigos lhe deram a idéia de queimar o quadro.
Com um saco de lixo eles entraram no quarto sem que a empregada percebesse, pegaram o quadro e botaram dentro do saco.
"Onde vamos queimar?" – perguntou André aos seus colegas.
"Na minha garagem! Vamos botar fogo nesse palhaço!" – respondeu Fernando.
Jogaram muito álcool, pularam em cima do quadro, chutaram a gravura do palhaço, cuspiram em cima dele, um verdadeiro exorcismo.
"Taca fogo André! Queima ele!" – gritou Fernando
André riscou o fósforo e jogou em cima do quadro. As labaredas consumiram o quadro, a gravura se desmanchou até não restar mais nada. Todos comemoraram. Menos a mãe de André que ficou revoltada ao saber que o garoto tinha destruído o quadro que seu avô lhe dera.
Era festa de aniversário de Fernando, já tinha passado alguns meses após o acontecido, todos os amigos reunidos inclusive André, muitos presentes chegaram, carrinho de controle remoto, vídeo game, bola, mas faltava desembrulhar um presente, ninguém sabia quem tinha dado aquele, estava encostado na parede, embrulhado com um papel marrom.
"Oba! Vamos ver o que é esse!" - gritou Fernando chamando os colegas.
"Acho que é um jogo!" – disse André
"Não! Eu acho que é um quebra cabeça!"
E ao desembrulhar a terrível surpresa...
"O quadro do palhaço!!!!"


Contos do Coveiro Zé - O quadro do palhaço
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Carta de um jovem suicida
Sabe quando tudo dá errado? Parece que tudo conspirava contra mim. Nada dava certo, acho que não deveria nem ter nascido. Confesso que tive alguns bons momentos nesses vinte e três anos, mas dá pra contar nos dedos. Agora, momentos ruins sempre me acompanharam, desde a morte da minha mãe. Apesar de ter apenas seis anos, me lembro como se fosse hoje, ela não saia do quarto, estava muito doente, tinha um aspecto horrível, magra, abatida, seus olhos eram a única coisa com vida em seu corpo, ainda lembro daquele olhar, aqueles imensos olhos verdes que me olhavam sem parar. Meu pai estava trabalhando na oficina, ele era o melhor pai e mecânico do mundo, eu adorava ficar naquela oficina, adorava ajudar meu pai, vem na lembrança aquela velha carabina que ele deixava na parede. Ele dizia "Espero nunca precisar usa-la". Era um dia quente, eu estava brincando no quintal, rindo muito das palhaçadas do meu primo. Quando Dona Leopolda apareceu na janela, e gritou para eu ir atras do meu pai na oficina, sai correndo, não lembro de ter corrido tanto como daquela vez, corri tanto que meu primo, três anos mais velho, ficou para trás. Nunca vou me esquecer do olhar do meu pai, parece que ele já sabia o que tinha acontecido só de me ver. Subimos na caminhonete e voltamos para casa. Ela estava morta, minha mãe, minha adorável mãe...
Tive vontade de chorar... Mas não consegui...
Minha mãe foi a segunda pessoa que mais amei, a primeira se chamava Raquel, ela era linda, ainda posso sentir seu perfume, seu longo cabelo castanho, os lábios, aquele olhar suave. Conheci Raquel no colegial, estudávamos na mesma sala, a carteira dela ficava ao lado da minha. Bons momentos passamos juntos, ela era a minha companheira, meu anjo da guarda. Eu era muito tímido, não tinha coragem de dizer o que sentia. Um dia ela foi até minha casa pra dizer que estava indo embora, tinha passado na universidade federal e ia se mudar. Fiquei olhando para ela, segurando sua mão...
Tive vontade de me declarar... Mas não consegui...
Sem Raquel fui procurar refugio em uma religião, eu achava que era a solução para me afastar dos problemas, comecei a freqüentar uma igreja evangélica que ficava a três quilômetros da minha casa. Como eu era muito bom de leitura logo já era auxiliar nos cultos, fiz amizade com o pastor, confiava muito nele. Pena que essa confiança durou pouco, um dia descobri que ele era charlatão, que se apoderava do dinheiro dos fieis. Ele me convidou para participar de tudo aquilo, disse que juntos ficaríamos ricos, que eu poderia até abrir uma outra igreja. Franchising de deus?
Tive vontade de denuncia-lo... Mas não consegui...
Estava cheio de tudo e de todos naquela mísera cidade, resolvi que era hora de ir atras do meu crescimento, afinal eu já tinha vinte anos, era um homem. Meu pai não aceitou a idéia, disse que eu deveria continuar a ajuda-lo na oficina, que ele estava velho e que esse era o momento para eu tomar as rédeas do negócio. Eu disse que nada que ele fizesse ia me impedir de ir embora, que não era meu projeto de vida ficar preso naquela cidade e muito menos naquela maldita oficina.
Dois dias depois eu já estava de malas prontas, era uma tarde de sábado, após o almoço eu parti. Meu pai ficou no portão, quieto, só observando.
Tive vontade de abraça-lo... Mas não consegui...
Meus primeiros meses na cidade grande foram difíceis, não conseguia arrumar emprego, morava em uma pensão horrível, cheguei até a passar fome. Mandava cartas para meu pai dizendo maravilhas, que estava bem, que tinha conseguido um bom emprego e uma boa casa.
Ele sempre me respondia que quando e se precisasse, meu quarto estava do mesmo jeito que deixei.
Tive vontade de voltar... Mas não consegui...
Parecia que minha sorte estava mudando, conheci um rapaz na pensão que resolveu me ajudar, disse que poderia me arrumar um emprego, para auxilia-lo na redação de um jornal. Eu fazia o serviço administrativo, e com muito empenho consegui ser promovido. Em menos de dois anos consegui sair da pensão e alugar uma casa, pequena mas muito confortável.
Meu pai continuava a mandar cartas para mim, mas a ultima não estava com sua letra, meu tio escreveu dizendo que meu pai estava muito doente, que eu precisava voltar porque ele queria me ver. Pedi afastamento no jornal, para poder ficar uns dias com meu pai, na estrada fiquei pensando em toda minha infância, em tudo que eu tinha passado naquela cidade. Depois de horas de viagem lá estava eu, entrando na casa que tinha nascido, estava vazia, meu pai não estava mais lá. Fui até a casa de meu tio, ele começou a chorar quando me viu. Meu pai tinha sido enterrado naquela manhã. Senti a pior dor da minha vida.
Tive vontade de gritar... Mas não consegui...
Voltei a minha antiga casa, arrependido por ter deixado meu pai sozinho, por ter passado quase três anos sem visita-lo. Lembrei da minha mãe, da Raquel, do meu pai, das pessoas que eu amava e que de uma maneira ou de outra tinham saído da minha vida.
Nada mais fazia sentido pra mim. Fui até a oficina. Fiquei lembrando dos carros que ali ficavam. Abri a caixa de ferramentas, ainda tinha aquele forte cheiro de graxa. Mas não era ferramentas que eu procurava. Lembram da velha carabina? Meu pai nunca precisou utiliza-la, mas eu estava precisando, naquele momento era a coisa que eu mais precisava. A carabina não estava na parede, estava embaixo do balcão, as balas estavam guardadas na segunda gaveta, aonde sempre ficaram. Sentei no chão e encostei a carabina abaixo do queixo, apertei ela com firmeza. Encostei o dedo no gatilho. Minha vida passou como um trailer...
Tive vontade de desistir... Mas não consegui...
Esta carta foi escrita por um homem que falava com os mortos, ele fez um diário com todas as cartas que psicografou.
Fernando Ferric

FALANDO COM OS MORTOS – Carta de um jovem suicida
É uma criação de Fernando Ferric-Proibido cópia total ou parcial.
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